As mulheres de A Lenda de Korra

O que é mais comum de se ver em obras de animação (principalmente japonesas) quando o assunto é mulheres e lésbicas? O mais normal é vermos mulheres estereotipadas, sexualizadas e uma fetichização com as lésbicas. Claro que não estou generalizando, mas infelizmente é o que se tem. Embora essa seja a realidade, existem obras que, para a nossa alegria, quebram com tudo isso e passam uma mensagem muito boa aos nossos jovens e uma delas é A Lenda de Korra.

A Lenda de Korra foi ao ar em 2012, mostrando a continuação de A Lenda de Aang e fazendo várias referências ao seu antecessor. A qualidade gráfica de Korra melhorou bastante em comparação às duas primeiras temporadas de Aang e sua construção de roteiro é algo de outro mundo, mostrando momentos super divertidos, mas também puxando muito para o lado dramático, dando, algumas vezes, um choque em quem está vendo, coisa que seu antecessor fazia, só que com menos frequência. Mas não estamos aqui para analisar toda a obra e sim para falar de suas mulheres.

ATENÇÃO! ESSE POST POSSUI SPOILERS.

Korra

Korra

Se vamos falar de A Lenda de Korra, não há personagem melhor para começar do que a própria Korra. Logo na primeira cena do primeiro episódio, Korra mostra que veio pra causar (Fala sério! A menina tem uns cinco anos e já domina três elementos! Que Avatar fez isso?). E então vemos uma Avatar jovem, atirada, um pouco egoísta e que não entende nada de espiritualidade. Mas ela é bem forte. A garota não leva desaforo pra casa e sabe brigar como ninguém. “Ah, Xico, mas ela não é nada feminina”. Beleza, ela não é uma garota que se encaixa no estereótipo de “mais feminina” do mundo, mas precisa? Ela tem suas coisas de garota, ela é sensível, se apaixona por um garoto e sofre por isso. “Ah, Xico, mas agora o personagem não é coerente porque ela não é totalmente durona”. Mas ela não precisa ser durona o tempo todo. Korra é forte, decidida, sensível e mulher. Olha que personagem maravilhosa, é a representação de força feminina perfeita.

Asami

Quando vi Asami Sato pela primeira vez eu pensei “Eita! Lá vem a patricinha!”. Claro que só pensei isso por um curto período de tempo. Tudo bem que ela é um tipo de garota que está sempre maquiada, é linda e cheia da grana, mas é uma das engenheiras mais brilhantes da República Unida, sabe se virar numa luta e não fica atrás por não ser dominadora. Temos que concordar que ela é mais feminina do que Korra (o que não tem problema algum), é igualmente forte e sabe muito bem o que quer. É uma outra representação maravilhosa de mulher: personagem super bem construída, que não deixa nada a desejar, é forte, mas que também sofre, assim como Korra, por conta de seu coração (que sismou de bater pelo mesmo cara que o da Korra).

Lin Beifong

Em A Lenda de Aang temos uma garotinha muito forte que se autointitula “A Melhor Dominadora de Terra do Mundo”, alcunha mais que merecida, eu acho. Pra quem não sabe, estou falando de Toph Beifong. A filha mais velha dessa garota não fica atrás. Lin é a Chefe de Polícia de Cidade República, solteira e preocupada com sua carreira. Lembra daquelas besteiras que dizem sobre mulher ter que se casar, ter filhos e uma família? Então. Lin não está nem aí para isso. O que ela mais quer é manter cidade república segura, preservar sua carreira e, com mais de quarenta anos, nem pensa em ter filhos. Fala sério, cara! Essa mulher é demais! Tudo bem que ela é ranzinza e grossa (ela é filha da Toph, era algo de se esperar), mas acima de tudo isso, Lin é uma mulher forte que quer usar toda essa força (e eu não estou usando a palavra força no sentido apenas físico) para proteger as pessoas que ela ama, incluindo os habitantes de Cidade República. Ela chega até a sacrificar sua dominação para cumprir sua missão.

Suyin Beifong

Por outro lado, não pensem que quando eu disse isso: “Lembra daquelas besteiras que dizem sobre mulher ter que se casar, ter filhos e uma família? Então. Lin não está nem aí para isso”, não quis dizer que nenhuma mulher pode casar, ter filhos e pensar em construir sua família. Só quis dizer que é uma opção dela. E foi a opção de Suyin Beifong, meia-irmã de Lin e filha mais nova de Toph. Suyin construiu uma cidade toda feita de metal e com alta segurança, se casou e constituiu uma família de nada menos que cinco filhos, isso tudo depois de rodar o mundo, sem amarras e se divertir bastante. Ela parece só uma mãe-governante-de-uma-cidade-de-metal, mas sabe colocar a mão na massa quando precisa. Pra vocês terem uma ideia, ela vai a luta (no sentido literal de sair na porrada) enquanto o marido (que é arquiteto) fica em um local seguro. “Ah, Xico, mas isso é ridículo. A mulher tem que ir lutar enquanto o marido fica em segurança?”. Oras, porque não? O marido dela não sabe lutar e ela é uma dominadora de metal, super poderosa, treinada pela maior dominadora de terra do mundo. Acho justo ela ir lutar. Só prova a força que a família Beifong (que só mostrou mulheres, com exceção do pai de Toph) tem.

Ming-Hua

Falamos de quatro “mocinhas”, digamos assim, então vamos falar de mulheres vilãs. A primeira coisa que se pensa (ou que se pensaria) quando vemos uma lutadora sem os braços é que ela não pode ser uma boa lutadora, muito menos uma boa dominadora. Ming-Hua é assim. A mulher não tem os dois braços, mas isso não a impediu de provar que não é incapaz. Ela usa sua dominação de água como braços e luta de uma maneira formidável. Todo mundo apanha pra ela. A mulher não passa nenhuma imagem de perigo quando não está dominado. Ela tem olheiras, é um pouco encurvada, não tem os braços, né, é pequena e magricela. Isso não a impediu de bater em grandalhões dominadores de terra e de ficar encabulada quando citam que ela gosta do amigo dela.

P’li

Todos que viram A Lenda de Aang se lembram do Homem Combustão, não é mesmo? Um dominador de fogo que usava sua mente para dominar o fogo através de um terceiro olho em sua testa. Em A Lenda de Korra nós temos P’li, que seria a Mulher Combustão. Nem preciso dizer né? Foi incrível terem dado para uma mulher um papel tão importante e forte. P’li é uma lutadora extremamente habilidosa, membro de uma sociedade secreta anarquista chamada Lótus Vermelho. Ela é também esposa do líder, Zaheer, e tenho que abrir um parentese para os dois aqui. Nossa sociedade prega diversos modelos de famílias e casais que seriam considerados os “corretos”. Aqui temos um casal cujo o homem é praticamente um monge e a mulher é forte, lutadora e MAIS ALTA. Esse último fator é o que quebra com o modelo de “homem deve ser mais alto”. Eu adorei isso e me senti de certa forma representado, já que sou baixinho.

Kuvira

Como última vilã da série, temos a antagonista da quarta temporada, Kuvira. Ela é uma dominadora de terra (e metal) que recebeu a incumbência de trazer ordem ao Reino da Terra, recebendo total poder político sobre o país, mas tendo que devolvê-lo ao Rei da Terra quando fosse a hora e, como todo bom ditador, ela não devolve. Kuvira coloca seus ideais acima de qualquer coisa ou pessoa, chegando a atirar em seu próprio noivo para poder destruir o Avatar. Ela nos mostra uma ditadora que não hesitaria em destruir sua própria família em nome da causa. Comecei a pensar em personagens com essa mentalidade e não me lembro de ter visto uma mulher nesse papel, mas A Lenda de Korra nos trouxe uma. E além de tudo isso ela faz cosplay de Priscila Fantin.

Antes de terminar gostaria de fazer um último parágrafo sobre a última cena da quarta temporada. Nela, Korra e Asami conversam e decidem sair de férias no mundo espiritual. Antes de entrarem no portal, as duas dão as mãos e se olham profundamente, o que eu entendi como uma referência à última cena de A Lenda de Aang, onde Katara e Aang se olham profundamente e se beijam. Em Korra, as duas não chegam a se beijar, mas fica claro que elas tem sentimentos românticos uma pela outra, o que foi confirmado pelos criadores da série e aparecerá na continuação em HQ da série.

Com isso podemos ver que A Lenda de Korra quis abordar dois assuntos que são pouco vistos em obras infantis. A primeira é a apresentação de mulheres fortes (novamente, não só no sentido físico), sem estereótipos ou um pingo se quer de sexualização, e abordar o relacionamento amoroso entre duas dessas mulheres, algo ainda considerado tabu em pleno século XXI. A Lenda de Korra é uma série que, além de mostrar aventura, faz com que nossas crianças, jovens e, até mesmo, adultos possam abrir suas mentes e entender que (1) mulheres podem, sim, ser fortes e determinadas, sem estereótipos, e (2) relacionamentos homoafetivos são tão normais quanto heterossexuais. Espero, de coração, que alguém possa ter tirado algum ensinamento valioso dessa obra e que venham mais obras como essa.

Um abração e até a próxima! o/

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